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Soldados desmaiam e denunciam maus-tratos em treinamento da PM no Acre: 'Pede para sair'

Soldados desmaiam e denunciam maus-tratos em treinamento da PM no Acre: 'Pede para sair'
16 setembro 11:23 2021 Imprimir notícia
Brasil

Elevada carga de exercícios físicos, longa exposição ao sol, horas sem comer e difícil acesso à hidratação. A realidade imposta aos alunos do curso de formação de soldados da Polícia Militar do Acre provocou cinco desistências na primeira semana de treinamento. E também resultou em denúncias de maus-tratos.

Reginaldo Ribeiro da Silva, de 34 anos, foi um dos cinco militares que pediram o desligamento. Foto: Arquivo Pessoal
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Reginaldo Ribeiro da Silva, de 34 anos, era um dos alunos do curso iniciado em 1º de setembro. No terceiro dia de treinamento, ele desmaiou duas vezes. Silva relata que após o segundo desfalecimento foi humilhado e coagido a desistir do curso, tendo inclusive escutado a frase que ficou famosa no filme Tropa de Elite.

— Eu tive dois desmaios e consegui voltar do primeiro. Mas do segundo eu não dei conta. Eu fiquei tonto, aéreo, só ouvi ele (instrutor) gritando 'pede pra sair', para assinar. Foi muita pressão psicológica, então assinei o documento sem consciência que estava assinando meu desligamento do curso — afirmou.

Silva conta que "apagou" depois do curso e percebeu o que havia ocorrido apenas no dia seguinte, quando abriu o WhatsApp e notou que tinha sido excluído de todos os grupos relacionados à PM.

A portaria com sua desistência foi publicada no Diário Oficial em 8 de setembro. Nesta mesma data, ele protocolou um requerimento pedindo uma reconsideração, com a alegação de que assinou o documento durante um momento de "confusão mental".

Silva foi aprovado no concurso 2017. No entanto, a corporação não o admitiu em uma fase posterior à prova escrita. Ele então recorreu à Justiça e somente neste ano conseguiu iniciar o curso de formação, junto com os que ficaram no cadastro de reserva.

— Não esperaram nem eu contar a história como aconteceu e publicaram no Diário Oficial. Então vou procurar os meus direitos. Eu acredito que houve animosidade comigo, porque eu entrei na Justiça. Ficavam sempre me perguntando se eu usava drogas, se eu era de facção criminosa, se eu batia em mulher. Tive um tratamento diferenciado desde o primeiro dia — disse.

Procurada pelo GLOBO, a Polícia Militar informou que foi instaurado um procedimento administrativo para averiguar os fatos relatados por Silva, relacionados ao seu desligamento do curso de formação de soldados.

Culpa do aluno

Homem registrou mão machucadas após o treinamento. Foto: Reprodução
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Outros quatro alunos assinaram a desistência do curso. Uma mulher publicou fotos dos pés feridos e um homem registrou suas mãos machucadas, com a carne exposta, após os treinamentos. De acordo com a PM, as bolhas nos pés foram ocasionadas pelo atrito com o calçado que o aluno não tinha hábito de usar. Em relação às mãos, a corporação disse que as lesões ocorreram porque o exercício foi executado de forma errada pelo aluno.

A corporação afirmou que havia uma ambulância com uma equipe médica à disposição dos alunos e aqueles que se machucaram passaram a não executar atividades que pudessem piorar suas lesões. Mas apesar dos problemas relatados na primeira semana de treinamento, a PM considera as situações relatadas como corriqueiras nos cursos de formação.

"Não é anormal que alguns alunos se sintam mal, que não consigam permanecer por muito tempo em pé, desmaiem, bem como se machuquem durante as atividades, considerando ainda as condições climáticas do Estado do Acre nesta época do ano", afirmou a PM.

Elevada carga de exercícios físicos, longa exposição ao sol, horas sem comer e difícil acesso à hidratação fazem parte da realidade imposta aos alunos. Foto: Reprodução
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A corporação justificou que a primeira semana costuma ser difícil para os alunos, "já que estão saindo do meio civil e ingressando na carreira militar, e não possuem o psicológico e, especialmente, o físico, adaptados para a realização de atividades que demandem um esforço maior".

"Exposição ao sol, longos períodos em pé, grandes deslocamentos com equipamentos pesados, por vezes a pé, horas sem comer, difícil acesso à hidratação, são situações vivenciadas por policiais militares diariamente, em seus serviços operacionais", diz a nota.

A polícia afirma ainda que a carreira militar é executada sob forte estresse, lidando com conflitos sociais, e por esse motivo o treinamento deve ser o mais parecido possível com a realidade que os soldados vivenciarão, "o que demanda, além do preparo psicológico, vigor físico, alcançado, dentre outras formas, através da rusticidade durante o treinamento".

Veja a nota na íntegra:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A respeito de notícias divulgadas na mídia envolvendo o Curso de Formação de Soldados 2021 (CFSD 2021), a Polícia Militar do Acre (PMAC) esclarece que:

1. Os Cursos de Formação de Soldados tem por objetivo a preparação de aprovados em concurso público para a carreira de Praças da Polícia Militar do Acre e é desenvolvido para qualificar o futuro soldado para a execução de atividades de polícia ostensiva e de preservação da ordem pública;

2. Para o início desta formação, é planejado um período de adaptação militar, com instruções (teóricas e práticas) preparatórias voltadas ao ensinamento de princípios, costumes e tradições militares, bem como execuções de ordem unida, educação física, marcha, formaturas, entre outras atividades, buscando-se conhecer e delimitar as condições físicas e psicológicas do corpo de novos policiais, para que se avalie os pontos que serão desenvolvidos durante a formação;

3.  A primeira semana de curso mostra-se sempre difícil para os alunos, já  que estão saindo do meio civil e ingressando na carreira militar, e não possuem o psicológico e, especialmente, o físico, adaptados para a realização de atividades que demandem um esforço maior.

4. Não é anormal que alguns alunos se sintam mal, que não consigam permanecer por muito tempo em pé, desmaiem, bem como se machuquem durante as atividades, considerando ainda as condições climáticas do Estado do Acre nesta época do ano. Entretanto, a Coordenação do CFSD planeja essas atividades já prevendo situações como essas, buscando utilizar os meios disponíveis para minorar esses acontecimentos.

5. Durante todo o período de adaptação, uma ambulância com uma equipe médica da Policlínica da PMAC acompanha o desenvolvimento das atividades. Todos os alunos que tiveram problemas foram avaliados pela equipe de saúde, e alguns foram encaminhados para a sede da Policlínica. Vale salientar que as orientações médicas são observadas, sendo que os alunos que se machucaram passaram a não executar atividades que pudessem piorar suas lesões. 

6. É importante destacar que não é de interesse da instituição que os alunos se machuquem durante as instruções. Porém, as pessoas possuem realidades fisiológicas diversas e algumas acabam sofrendo mais durante os treinamentos.

7. Exposição ao sol, longos períodos em pé, grandes deslocamentos com equipamentos pesados, por vezes a pé, horas sem comer, difícil acesso à hidratação, são situações vivenciadas por policiais militares diariamente, em seus serviços operacionais. Considerando que a carreira policial militar é executada, em sua essência, sob forte estresse, lidando com conflitos sociais, a qualquer hora do dia ou da noite, bem como em qualquer lugar, é razoável que se treine esses policiais para algo próximo a realidade que vivenciarão pelo resto de suas carreiras, o que demanda, além do preparo psicológico, vigor físico, alcançado, dentre outras formas, através da rusticidade durante o treinamento.

8. Acerca da situação relatada pelo Sr. Reginaldo Ribeiro, no dia 8 de setembro, portanto, antes de seu desligamento do curso ser alvo de matéria jornalística, já havia sido instaurado pelo Diretor de Ensino um procedimento administrativo para averiguação dos fatos por ele relatado, relacionados ao seu desligamento do Curso de Formação de Soldados.

9. A respeito de imagem divulgada de uma aluna com os pés enfaixados, esclarecemos que a policial feminina em formação teve bolhas nos pés ocasionadas pelo atrito de seu pé com o calçado que não era habituada a usar. Tão logo a coordenação do curso tomou conhecimento de sua situação, a encaminhou para atendimento médico e, por esse motivo, encontrava-se nas condições em que a foto foi tirada;

10. Quanto a foto de mãos com bolhas estouradas, trata-se de um aluno que se lesionou durante uma atividade de educação física militar denominada funcional, por executar de forma errada um dos exercícios.

11. Por fim, informamos que cinco alunos do sexo masculino pediram desligamento do curso por variados motivos. Deixamos claro que em nossas formações e ações, a PMAC preza pela observância das normas vigentes no país, com respeito aos direitos e garantias fundamentais, dando a todos os alunos um tratamento igualitário, não compactuando com qualquer procedimento degradante, que ofenda a dignidade da pessoa humana.

Assessoria de Comunicação da PMAC

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